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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Entrevista com Cezar Taurion

Numa entrevista especial para esse blog, Cezar Taurion, gerente de novas tecnologias e evangelista técnico da IBM Brasil e um dos mais conhecidos consultores do mercado brasileiro, expressa suas opiniões e visões sobre o Mainframe.

Cezar começou sua carreira em meados dos anos 70 como programador Cobol e Assembler e exerceu diversas funções até atingir os níveis gerencias. A partir dos anos 80 se afastou das atividades técnicas para assumir funções mais executivas e estratégicas,  mantendo-se ligado a plataforma até meados dos anos 90, quando passou a exercer a função de consultor  de tecnologia, não exclusivamente mainframe.

 Abaixo a entrevista na íntegra.



DR:  Taurion,  quando e como foi seu primeiro contato com os mainframes ?
Comecei a carreira na IBM em meados da década de 70, no então CSD (Centro de Serviços de Dados), no centro do Rio, com IBM 360/40 com o sistema DOS. Era um mundo novo. Computadores chamavam atenção e no então chamado CPD, que ficava no térreo as pessoas passavam e olhavam admiradas os computadores (se não me engano eram 3 sistemas 360) e os técnicos, operadores e programadores circulando atarefados em volta. Era engraçado ver as pessoas ficarem paradas vendo as maquinas pelas vidraças. A gente se sentia importante...Computadores eram coisa rara na época. Comecei a escrever programas em Cobol e logo depois meu primeiro programa em Assembler. Li todo o famoso POP (Principles of Operation) que descrevia  uma a uma as instruções do /360. O meu primeiro Assembler a gente não esquece...usávamos folhas de programação e creio que o programa, grande para a época, chegou a umas 200 folhas. Era muito código para um principiante... mas depois de algumas ou melhor, muitas tentativas ele funcionou! Depois de alguns anos na IBM entendi que gostaria de ver como os computadores ajudavam a mudar as empresas e sai da companhia para ingressar em um grande usuário, que era a Shell. Depois da Shell passei por varias experiências profissionais e por ultimo na PwC,  e quando com a compra da sua divisão de consultoria, em 2002, regressei à IBM. Mas a saída da IBM para a Shell foi sustentada pela ideia de entender como a automação dos processos, papel da informática na época, poderia mudar as empresas e me fazer ver realmente o valor da computação nos negócios. Já na Shell trabalhei com os 370, que implementavam memória virtual. Este recurso permitia que um programa fosse maior que a memória real. Por exemplo, o programa poderia ter 4 MB, embora a máquina real tivesse apenas 1 MB. Mas, o endereçamento restrito a 24 bits já era, claramente, uma limitação para o início dos anos 80. Apareceu então o 370/XA, com endereçamento de 31 bits. Pouco depois ficava patente que mesmo estes 31 bits eram insuficientes e surgiu a arquitetura 370/ESA, que permitia segmentação de modo a um programa acessar mais de uma região de memória de 31 bits. Foi nessa época que comecei a me distanciar das atividades mais técnicas de programação e suporte e me dedicar mais ao uso da tecnologia nos negócios. Mas, resumindo trabalhei com 360, 370, 308X e 3090, em sistemas como DOS, DOS/VS, VSE, VM, VS1 e MVS. E em programação Cobol, Assembler e alguma coisa de PL1...

DR: Até que momento voce trabalhou com mainframes e qual era o momento do mercado então ?
Na prática nunca deixei de trabalhar com mainframes. Envolvido diretamente com programação e atividades mais técnicas creio que até meados dos anos 80. Mas como consultor o mainframe sempre esteve por perto. Muitos projetos de consultoria envolviam mainframes. Interessante que ainda hoje, quando falo em mainframes volta e meia me surpreendo com opiniões que estou falando de algo da era jurássica...Uma recente conversa com um colega meu, CIO de uma grande corporação foi emblemática da percepção, erronea,  de muitos executivos quanto aos mainframes. Ele, como muitos outros profissionais é da geração formada durante o movimento de downsizing, que consagrou o modelo cliente-servidor e que considerava “politicamente correto” desligar o mainframe. Nesta época, início dos anos 90, todo e qualquer projeto de consultoria recomendava a mesma coisa: troquem os caríssimos mainframes pelos baratos servidores distribuídos. Claro que muitas decisões de troca foram acertadas, mas muitas outras se revelaram inadequadas. O custo de propriedade de ambientes distribuidos se mostrou muito mais caro que se imaginava. 
Interessante que uma vez criada uma percepção, torna-se dificil mudar as idéias. Olhar o mainframe sob outra ótica é uma mudança de paradigmas e mudar paradigmas não é facil. Paradigma é como as pessoas vêem o mundo, ele explica o próprio mundo e o torna mais compreensível e previsível. Mudar isso exige, antes de mais nada, quebrar percepções arraigadas.  Mas, por que não repensar o mainframe? Ele é uma máquina superatualizada, roda Java, Linux, enfim...pensar nele como uma máquina obsoleta é totalmente incorreto.
Lembro de muitos projetos de consultoria onde meu diagnóstico era de não desligar o mainframe, pelo contrário, usá-lo em parceria com os sistemas distribuidos. A questão não deveria ser manframe ou sistemas distribuidos, mas mainframes e sistemas distribuidos. O que considerava e considero mais correto é juntar esforços e extrair o melhor de cada tecnologia.


DR:  Depois que você se tornou um consultor renomado no mercado brasileiro , como os seus conhecimentos de mainframe  continuaram a  orientar suas analises da indústria  ?
A consultoria deve entender o problema do cliente, pelo ponto de vista das suas necessidades de negócio e identificar as tecnologias que poderão  fazer diferença competitiva se aplicadas adequadamente. Cada vez mais vemos que todas as empresas serão em maior ou menor grau empresas de tecnologia. Isso não quer dizer que elas venderão produtos digitais, mas que a tecnologia estará entranhada em seus processos e produtos, como a Internet das Coisas. O mainframe é uma alternativa tecnológica que deve ser considerada. Engraçado que há uns 30 anos que se diz que o mainframe está morto. Mas ele está por ai, e sendo muito utlizado. Muitas empresas de diversos setores, como bancos, governo, industrias o consideram um ativo estratégico para seus negócios. Um indicativo do  cenário mundial é que o mainframe pode estar diminuindo em sua base instalada em medias empresas, mas se mantém estável nas grandes. E uma medida de capacidade, MIPS, indica crescimento na base instalada. Ou seja, não se amplia o parque mas quem tem aumenta seu uso, com novas aplicações. Os pontos positivos mais citados por quem usa o mainframe são a confiabilidade e resiliência do sistema, segurança e capacidade de executar grande volume de transações. Agora uma reclamação que ouço bastante é quanto ao custo do software e a ainda pouco intuitiva experiência de uso. O mainframe precisa e creio que seja esta a estratégia da IBM ser simplificado em seu uso. Pelo menos vejo várias ações no sentido de prover melhor “user experience” para os usuários, principalmente para os profissionais que interagem diretamente com a parte técnica do sistema.

DR:  Como você vê o valor do mainframe no atual momento da industria e as tecnologias que estão na onda?
Não existe razão nenhuma para ignorar o mainframe quando falamos nas ondas tecnológicas como Big data e mobilidade, por exemplo. Big data é uma boa oportunidade de explorar a capacidade de processamento e computação dos mainframes. Mobilidade demanda um imenso volume de transações. Observemos o seguinte. Com smartphones e tablets nas mãos de funcionarios e clientes, o numero de transações cresce exponencialmente. Elas são feitas de qualquer lugar e qualquer momento. E demandam sofisticação crescente. O smartphone é intuitivo e facil de usar, mas porque esconde toda a complexidade para o usuário. Nesta complexidade estão as milhões de linhas de código que serão acionadas a partir  da tela touch-screen, milhões executadas por diversos serviços como Google Maps, mas também milhões  nos sistemas corporativos ( os systems of records) que seguram os processos operacionais dos, por exemplo,  bancos e seguradoras. 

DR:  Como você vê  o futuro do mainframe e sua contínua  inserção  no contexto das empresas ?
Um desafio é a capacitação de profissionais. Uma pesquisa feita pelo Computerworld em 2012, em ambito mundial, mostrou que 22% dos programadores Cobol tinham pelo menos 55 anos e que a metade dos programadores tinham entre 45 e 55 anos. Isto significa que em 20 anos restarão poucos coboleiros... mas, vamos ver um outro lado. Seguramente teremos sistemas legados a serem mantidos, e o uso de boas técnicas de documentação e recursos que automatizem o processo de manutenção mitigarão a falta de coboleiros. Além disso, o mainframe torna-se mais  e mais autogerenciavel, demandando menos pessoal de suporte. O uso crescente de Linux e Java, que não enfrenta escassez de profissionais também é uma variável importante. Portanto, é um desafio, mas perfeitamente gerenciavel e contornavel. Interessante que provavelmente veremos quatro gerações de profissionais em torno de um computador...Sim, temos os veteranos, nascidos antes de 1946, os baby boomers, a geração X e a geração Y trabalhando com mainframes.  Temos os que conhecem a fundo o Z/OS e o que conhecem Linux. Temos os que escrevem códico em Assembler e Cobol e temos o pessoal do Java. Temos data scientists analisando volumes imensos e variados de dados. Enfim, dizer que o mainframe já morreu é ignorar os fatos que estão a nossa volta. Quem sabe se  ele não  fará os 70 anos ainda em atividade intensa?